sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Questão de fé

Eu nunca li o Alcorão. Assim como também nunca li a Bíblia, mas tenho algo para contar sobre uma mulher muçulmana que conheci.

Quando eu estudei em Londres, tive a oportunidade de conhecer duas pessoas de mundos opostos: uma muçulmana da Arábia Saudita e um judeu de Israel.
Eu, com minha cabecinha judaico-cristã, sempre ficava confusa com o comportamento da Zena. Ela não era nem um pouco reprimida ou fanática, era apenas uma garota normal. Até que em uma aula em que estávamos lendo manchetes de jornal e ela disse que os judeus para nós (o povo muçulmano) não eram pessoas, eram animais como porcos.
Mais uma vez com toda minha racionalidade judaico-cristã, fiquei abismada e fui conversar com o cara judeu. Ele me disse que tinha participado do exército em guerras e eu fiquei chocada, porque ele devia ter no máximo uns 20 anos.
Tempo vai, tempo vem e o tal judeu que merecia toda minha simpatia acabou se revelando uma pessoa detestável. Chato, imaturo, burro e bem irritante. Enqüanto isso, a Zena se revelava uma pessoa cada vez mais interessante. Simpática, alegre e inteligente. Adorava conversar com ela. Até que em outro dia, mais uma vez lendo manchetes de jornais, ela me disse que adorava usar a burka. Mas hein? Aí já era demais pra minha cabecinha absorver. A burka não reprime e sufoca as mulheres? Não. Ela me disse que gostava porque com a burka podia sair de casa vestindo o pijama. E eu fiquei imaginando a sensação de liberdade que se deve ter ao sair de casa apenas com um pijama e um pano por cima.
Você pode dizer que ela foi condicionada a gostar da burka, mas eu acho isso tão raso. Como se as mulheres muçulmanas não tivessem capacidade de raciocínio e questionamento. Fosse assim, nós também nunca seríamos feministas.
E pense em todas as outras formas de repressão que nós mulheres ocidentais modernas, porém com a mesma mentalidade judaico-cristã passamos mas não causa tanta revolta ou estranheza?

Este vídeo (da série Jack and Bobby) fala bem o que eu estou tentando dizer:

video

Hebba: A coisa é... Eu ainda acho que você foi injusta comigo naquele dia. Você me julgou superficialmente. Você olhou pra mim e viu uma mulher muçulmana oprimida, forçada a cobrir sua cabeça por uma cultura misógena e atrasada.

Grace: Eu nunca disse isso.

H: Isso é o que você quis dizer, você me viu como uma vítima. Eu não acho que você veja minha escolha sobre isso tudo. Você sabe, no meu corredor tem duas meninas que são anoréxicas, uma que tem próteses de silicone, duas outras que estão considerando cirurgia ou no corpo ou no rosto. Todas elas obcecadas com seus pesos ou suas roupas ou seus visuais. Isso é o que sua cultura faz com as mulheres. Sugere ideais que elas nunca irão atingir, e quando elas falham, diz que elas são inúteis. Você fala sobre meu condicionamento, mas o que você não entende é que eu sou uma feminista como você. E isto (apontando para o véu) é uma parte disto. Isto sou eu dizendo não para todas as formas que sua cultura tenta me explorar. Isto sou eu dizendo sim para minha religião e meu Deus, sem saber se eu sou liberada. Eu sou liberada.
Bem, de qualquer forma, eu te vejo na aula.

G: Hebba, me desculpe.

H: Obrigada.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Nobel alternativo destaca direitos da mulher

Além do prêmio Nobel tradicional, existe uma espécie de "Nobel alternativo" que reconhece o trabalho social de pessoas e instituições no mundo todo.

A cerimônia de entrega do Nobel Alternativo, realizada hoje no Parlamento sueco, enviou uma mensagem a favor da luta pelos direitos da mulher, centrada sobretudo em dois de seus quatro agraciados, a ativista somali Asha Hagi e a ginecologista alemã Monika Hauser. Hauser, premiada por seu trabalho com a ONG Medica Mondiale, criticou em seu discurso que o estupro contra mulheres não seja reconhecido como um ataque aos direitos humanos, não só na África, mas também na Ásia ou nos Bálcãs, onde trabalhou durante a guerra da Bósnia. A ginecologista alemã protagonizou um dos momentos mais emocionantes da cerimônia, ao pedir que várias de suas colegas na ONG fundada por ela mesma em 1992 e presentes na sala se levantassem em sinal de reconhecimento a seu trabalho dentro da organização. A lista de agraciados é completada com a jornalista americana Amy Goodman, fundadora e apresentadora do programa "Democracy Now!", reconhecida por sua defesa de um jornalismo político independente.
Fonte.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Calendário Pirelli 2009

O Calendário Pirelli é a versão chique e glamourizada daquelas tradicionais folhinhas de borracheiros. Todos os anos seus clientes preferenciais recebem um calendário feito por um fotógrafo renomado com super modelos. As modelos sempre são mostradas em situações erotizadas e semi-nuas, mas esse ano eles passaram do ponto:


Vejam a explicação do tema do calendário tirada da página da Pirelli:
Peter Beard optou por uma autêntica terra ancestral que é nascido da correlação de dois mundos: o oásis aquático do delta do Rio Okavango e os do árido deserto Kalahari. Um lugar que tem sido poupado tanto a exploração da terra e do empobrecimento dos seus recursos. Um cenário ideal para o fotógrafo na representação da natureza como uma entidade metafísica, sempre em movimento, fonte de criatividade infinita, em cujos ritmos e leis tudo deve começar e terminar.

Que lindo.
Agora o que isso tem a ver com imagens que claramente remetem à violência sexual?
As fotos são extremo mal gosto, com o agravante de usarem uma mulher negra nessa situação.

Mais fotos aqui.

Como curiosidade, a brasileira Isabeli Fontana participa desse calendário.

Feminismo islâmico

Como essa matéria saiu na área restrita, coloco aqui os pontos que gostei mais.

Feminismo islâmico: a volta de uma feminista aos valores do Islã


Nadira Artyk*

Meu relacionamento com o Islã nunca foi claro. Eu fui criada no Uzbequistão soviético, ouvindo meu avô recitar o Alcorão diariamente. Às vezes, ele traduzia alguns versos para nós. Eu era atraída pela beleza da prosa; sentia uma forte conexão e admirava especialmente os valores de justiça social, igualdade e generosidade do espírito humano.

Por outro lado, eu fui Jovem Pioneira Soviética e, mais tarde, ativista do Komsomol. Apesar de todo o meu respeito e amor por meu avô religioso, eu via um desnível entre suas palavras e minha realidade, ao menos em uma área -não havia igualdade nem justiça nas famílias muçulmanas. A superioridade dos homens sobre as mulheres era profundamente entranhada e nunca questionada.

No Uzbequistão soviético, as mulheres eram emancipadas apenas na esfera pública, mas essa emancipação em geral terminava na porta de casa. A sociedade permanecia profundamente patriarcal e os principais papéis das mulheres ainda eram de esposa e mãe. Quaisquer aspirações das mulheres que fossem além dos trabalhos femininos "clássicos", de professora ou enfermeira, eram desestimuladas.

Eu passei a acreditar que a desigualdade dos sexos era parte integrante dos ensinamentos islâmicos. Como isso não se encaixava com minha visão de mundo, eu me distanciei da minha religião e abracei o feminismo secular.

Então, decidi estudar a fonte original -o Alcorão e o Hadith (os dizeres e feitos do profeta Maomé). Foi assim que descobri o Islã progressista e o feminismo islâmico. Eu passei a compreender que minha fé tinha fortes mensagens igualitárias dentro dela; e que o Alcorão e o Hadith, interpretados por homens durante 14 séculos, tinham camadas de bias patriarcal presas a eles como camadas de poeira.

Feministas do Egito, Indonésia, Paquistão, Marrocos, Senegal e outras partes do mundo contaram que, quando tentaram educar as mulheres sobre seus direitos com base na agenda de direitos humanos ocidental, freqüentemente foram encaradas com suspeita. As mulheres perguntavam se esses princípios eram compatíveis com o Islã e respondiam com muito mais entusiasmo a argumentos baseados nos ensinamentos islâmicos, com soluções para seus problemas sociais originadas de dentro de sua própria fé.

O feminismo islâmico é um movimento iniciante, mas está espalhando suas asas rapidamente. Seu alvo é recuperar a voz igualitária do Alcorão. Sua principal luta é sustentar a igualdade de sexo dentro das famílias. É aí que as feministas muçulmanas diferem das feministas clássicas -elas dizem que a mulher só será capaz de praticar todos os seus direitos na esfera pública se seus direitos dentro de sua família forem respeitados.

Eu precisei de duas décadas para encontrar o meu Alcorão. Quando o fiz, descobri mensagens profundamente fortalecedoras, justas e verdadeiras para mim.

Hoje, as condições do mundo muçulmano e das mulheres muçulmanas estão em forte contraste com a visão islâmica original. O feminismo islâmico tem o potencial de mudar isso.

* Nadira Artyk é defensora dos direitos da mulher e jornalista. Ela mora no Brooklyn, Nova York.
Fonte.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Dia Mundial de Combate à Aids

Hoje é Dia Mundial de Combate à AIDS.
Então vamos tod@s lembrar que AIDS não é diabetes, não está controlada e não tem cura.

E pra não dizer que eu fugi do tema desse blog:
Quando eu era criança pequena e a AIDS assustava todo mundo mais do que a queda da bolsa, os homossexuais eram considerados grupo de risco. Quando eu era adolescente começaram a perceber que não havia grupo de risco, bastava transar pra poder se contagiar.
Hoje muitas pesquisas mostram que o "grupo de risco" somos nós mulheres.
Porque ainda tem muita tonta que cede quando o cara fala que não gosta de usar camisinha. Pra essas eu digo: Toma vergonha na cara, minha filha! O que vale mais: Um babaca em um relacionamento que provavelmente não vai ter futuro, ou sua vida?
Ainda tem o caso das mulheres casadas, cujos maridos as contaminam. Pra esses eu digo: Aprontem com responsabilidade!
Para as mulheres que ainda tem vergonha de comprar camisinha, pelamor né? Eu não tenho a menor vergonha, pelo contrário, me sinto muito feminista fazendo isso. Tentem, vocês vão ficar orgulhosas.
E pratiquem sempre a máxima de que sem camisinha não tem perna aberta. Simples assim.

Devo registrar também que adorei essa nova propaganda do Ministério da Saúde voltada para a "turma do enta". A propaganda é genial, e esse é o grupo em que a AIDS tem crescido mais. Afinal, o viagra tá aí.

Questão de saúde pública

Semana passada, diante do caso do juiz que vai indiciar 1500 mulheres por aborto, resolvi fazer uma enquete perguntando oq as pessoas acham desse assunto. 16 pessoas votaram e o resultado foi o seguinte:

Sou contra: 1 voto - 6%
Sou a favor nos casos já previstos em lei (estupro, risco de morte da mãe): 1 voto - 6%
Sou a favor em qualquer caso: 14 votos - 87%

A questão do aborto sempre é complicada por essas bandas porque sempre tem o dedinho da Igreja pra azedar o doce. Eu sinceramente não consigo nem raciocinar com o argumento de que "a vida começa na fecundação". Pensar que um conglomerado de células pode ser considerado um ser humano é demais pra minha cabecinha. Não consigo absorver mesmo.

Em junho de 2007 o ministro da saúde José Gomes Temporão deu uma entrevista muito boa à Superinteressante:

Desde que o senhor assumiu o cargo, o debate sobre a legalização do aborto foi reaceso. Por que esta é uma questão médica importante?

É importante lembrar o contexto dessa polêmica. Não fui eu que escolhi o tema. O tema é que me escolheu. Isso apareceu no meio de uma entrevista em que me perguntaram qual a minha posição sobre o aborto. Disse que era uma questão de saúde pública. No ano passado, foram realizadas 220 000 curetagens pós-aborto na rede pública. Estima-se em 1,1 milhão o número de abortos clandestinos por ano no Brasil. Recentemente, aconteceram mortes em conseqüência de abortos malsucedidos no Rio e em Belém. E, como as classes de menor renda não têm acesso à informação e aos métodos anticoncepcionais, são as mulheres pobres que realizam aborto em condições inseguras. Para as mulheres ricas, o aborto é uma questão que não se coloca. Elas fazem. Em condições seguras. Pagam R$ 2 000, R$ 5 000. As mulheres pobres não. Existe também uma questão de gênero. Eu pergunto: se os homens engravidassem, será que essa questão já teria sido resolvida? Como é que alguns setores têm coragem de dizer que essa é uma questão que não pode ser discutida? Não vamos discutir que as pessoas estão morrendo? A realidade está batendo na nossa cara.
Fonte.

Em uma resposta o ministro conseguiu resumir tudo de mais importante sobre essa questão.
Virou ídolo absoluto no meu reino.