Quando eu estudei em Londres, tive a oportunidade de conhecer duas pessoas de mundos opostos: uma muçulmana da Arábia Saudita e um judeu de Israel.
Eu, com minha cabecinha judaico-cristã, sempre ficava confusa com o comportamento da Zena. Ela não era nem um pouco reprimida ou fanática, era apenas uma garota normal. Até que em uma aula em que estávamos lendo manchetes de jornal e ela disse que os judeus para nós (o povo muçulmano) não eram pessoas, eram animais como porcos.
Mais uma vez com toda minha racionalidade judaico-cristã, fiquei abismada e fui conversar com o cara judeu. Ele me disse que tinha participado do exército em guerras e eu fiquei chocada, porque ele devia ter no máximo uns 20 anos.
Tempo vai, tempo vem e o tal judeu que merecia toda minha simpatia acabou se revelando uma pessoa detestável. Chato, imaturo, burro e bem irritante. Enqüanto isso, a Zena se revelava uma pessoa cada vez mais interessante. Simpática, alegre e inteligente. Adorava conversar com ela. Até que em outro dia, mais uma vez lendo manchetes de jornais, ela me disse que adorava usar a burka. Mas hein? Aí já era demais pra minha cabecinha absorver. A burka não reprime e sufoca as mulheres? Não. Ela me disse que gostava porque com a burka podia sair de casa vestindo o pijama. E eu fiquei imaginando a sensação de liberdade que se deve ter ao sair de casa apenas com um pijama e um pano por cima.
Você pode dizer que ela foi condicionada a gostar da burka, mas eu acho isso tão raso. Como se as mulheres muçulmanas não tivessem capacidade de raciocínio e questionamento. Fosse assim, nós também nunca seríamos feministas.
E pense em todas as outras formas de repressão que nós mulheres ocidentais modernas, porém com a mesma mentalidade judaico-cristã passamos mas não causa tanta revolta ou estranheza?
Este vídeo (da série Jack and Bobby) fala bem o que eu estou tentando dizer:
Hebba: A coisa é... Eu ainda acho que você foi injusta comigo naquele dia. Você me julgou superficialmente. Você olhou pra mim e viu uma mulher muçulmana oprimida, forçada a cobrir sua cabeça por uma cultura misógena e atrasada.
Grace: Eu nunca disse isso.
H: Isso é o que você quis dizer, você me viu como uma vítima. Eu não acho que você veja minha escolha sobre isso tudo. Você sabe, no meu corredor tem duas meninas que são anoréxicas, uma que tem próteses de silicone, duas outras que estão considerando cirurgia ou no corpo ou no rosto. Todas elas obcecadas com seus pesos ou suas roupas ou seus visuais. Isso é o que sua cultura faz com as mulheres. Sugere ideais que elas nunca irão atingir, e quando elas falham, diz que elas são inúteis. Você fala sobre meu condicionamento, mas o que você não entende é que eu sou uma feminista como você. E isto (apontando para o véu) é uma parte disto. Isto sou eu dizendo não para todas as formas que sua cultura tenta me explorar. Isto sou eu dizendo sim para minha religião e meu Deus, sem saber se eu sou liberada. Eu sou liberada.
Bem, de qualquer forma, eu te vejo na aula.
G: Hebba, me desculpe.
H: Obrigada.

