quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Feminismo islâmico

Como essa matéria saiu na área restrita, coloco aqui os pontos que gostei mais.

Feminismo islâmico: a volta de uma feminista aos valores do Islã


Nadira Artyk*

Meu relacionamento com o Islã nunca foi claro. Eu fui criada no Uzbequistão soviético, ouvindo meu avô recitar o Alcorão diariamente. Às vezes, ele traduzia alguns versos para nós. Eu era atraída pela beleza da prosa; sentia uma forte conexão e admirava especialmente os valores de justiça social, igualdade e generosidade do espírito humano.

Por outro lado, eu fui Jovem Pioneira Soviética e, mais tarde, ativista do Komsomol. Apesar de todo o meu respeito e amor por meu avô religioso, eu via um desnível entre suas palavras e minha realidade, ao menos em uma área -não havia igualdade nem justiça nas famílias muçulmanas. A superioridade dos homens sobre as mulheres era profundamente entranhada e nunca questionada.

No Uzbequistão soviético, as mulheres eram emancipadas apenas na esfera pública, mas essa emancipação em geral terminava na porta de casa. A sociedade permanecia profundamente patriarcal e os principais papéis das mulheres ainda eram de esposa e mãe. Quaisquer aspirações das mulheres que fossem além dos trabalhos femininos "clássicos", de professora ou enfermeira, eram desestimuladas.

Eu passei a acreditar que a desigualdade dos sexos era parte integrante dos ensinamentos islâmicos. Como isso não se encaixava com minha visão de mundo, eu me distanciei da minha religião e abracei o feminismo secular.

Então, decidi estudar a fonte original -o Alcorão e o Hadith (os dizeres e feitos do profeta Maomé). Foi assim que descobri o Islã progressista e o feminismo islâmico. Eu passei a compreender que minha fé tinha fortes mensagens igualitárias dentro dela; e que o Alcorão e o Hadith, interpretados por homens durante 14 séculos, tinham camadas de bias patriarcal presas a eles como camadas de poeira.

Feministas do Egito, Indonésia, Paquistão, Marrocos, Senegal e outras partes do mundo contaram que, quando tentaram educar as mulheres sobre seus direitos com base na agenda de direitos humanos ocidental, freqüentemente foram encaradas com suspeita. As mulheres perguntavam se esses princípios eram compatíveis com o Islã e respondiam com muito mais entusiasmo a argumentos baseados nos ensinamentos islâmicos, com soluções para seus problemas sociais originadas de dentro de sua própria fé.

O feminismo islâmico é um movimento iniciante, mas está espalhando suas asas rapidamente. Seu alvo é recuperar a voz igualitária do Alcorão. Sua principal luta é sustentar a igualdade de sexo dentro das famílias. É aí que as feministas muçulmanas diferem das feministas clássicas -elas dizem que a mulher só será capaz de praticar todos os seus direitos na esfera pública se seus direitos dentro de sua família forem respeitados.

Eu precisei de duas décadas para encontrar o meu Alcorão. Quando o fiz, descobri mensagens profundamente fortalecedoras, justas e verdadeiras para mim.

Hoje, as condições do mundo muçulmano e das mulheres muçulmanas estão em forte contraste com a visão islâmica original. O feminismo islâmico tem o potencial de mudar isso.

* Nadira Artyk é defensora dos direitos da mulher e jornalista. Ela mora no Brooklyn, Nova York.
Fonte.